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Mundial 2006

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Que se lixe

MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Pronto. Que se lixe. Levem lá a taça, que a gente continua cá, se não

se importam. Vamos ali fazer um piquenique com os alemães e voltamos

já.

Poça, já se sabia que tinha de ser com o raio dos franceses e que

Portugal jogar mal ou bem seria irrelevante. Mas tanto?! A ironia,

muito francesa porque é daquelas pesadas e óbvias que não têm graça

nenhuma, é que Portugal jogou muito bem e a França não jogou nada.

Aliás, quanto melhor jogava Portugal, mais aumentava a probabilidade

da França ganhar. É azar. É esse o termo técnico, exactamente.

Não foi só o árbitro, embora este tudo tenha feito para ser a estrela

principal da partida. Não, é o azar que os franceses dão. Mesmo quando

estão cabisbaixos e amedrontados, cheios de vontade que o tempo

passasse e os poupasse, dão azar.

E porquê? Porque os portugueses também dão azar aos franceses,

coitados. Dão-lhes o azar de pô-los a jogar mal. E o azar de fazerem

figura de tontos e medricas. Os franceses também não mereciam tal

azar. Tanto mais que cada jogo com eles traz uma vingança

pré-fabricada: depois desta meia-final, já ninguém poderá dizer que

Zidane e os "bleus" renasceram milagrosamente. Onde? Quem? Não, o

milagre foi só um: o de não terem perdido.

Em contrapartida, os franceses dão aos portugueses o azar de perder.

Bonito serviço. Assim não dá gosto; não se pode trabalhar; nem há

condições para jogar; é escusado. E quando jogarmos outra vez com os

franceses, vai acontecer a mesma coisa. O azar existe e o azar

reincidente e metódico, no caso da França, existe mais ainda. Antes

fosse ao contrário? Talvez não. Mais vale perder como perdemos, a

jogar como campeões, do que ganhar a jogar como os franceses, como

perdedores natos, receosos e trapalhões, sem saber o que se passa ou o

que se vai passar. Fizeram má figura e ganharam. Que os italianos lhes

sejam leves!

Dirão uns que não faz mal, que já foi muito bom chegarem às

meias-finais. Mas não é verdade. Para chegarem às meias-finais foi

preciso pensarem que podia ser campeões do mundo. E agora custa um

bocadinho - um bocadinho nobre e bonito mas muito custoso - voltar

atrás. Se a esplêndida selecção portuguesa tivesse pensado que

bastaria chegar às meias-finais nem tinha ganho ao México e muito

menos à Holanda e à Inglaterra.

Foi bonito saber, como ficou sabido e comprovado, que não é assim tão

difícil Portugal ser campeão do mundo. O próximo Mundial, em 2010,

parece muito mais apetecível por causa disso. É ganhável - como era

este. Não se pode subestimar a segurança que o Mundial 2006 trouxe à

selecção. Já não se pode falar em sonhos como se fossem delírios. Não:

os sonhos agora passaram a objectivos, altamente práticos e

alcançáveis. É obra.

Portugal já não é o "outsider" que era nos primeiros dias do mês

passado. Por muito que isso custe aos detractores e inimigos (que

utilizaram esse estatuto marginal para nos marginalizar ainda mais), a

partir de agora Portugal é não só um campeão potencial como um campeão

provável.

Tanto crescemos que finalmente ficámos crescidos, adultos, senhores. É

bom que os outros senhores do futebol comecem a habituar-se à presença

e à ameaça constantes dos novos senhores. Porque os antigos menininhos

portugueses, que eram tão giros e que tanto jeitinho davam,

desapareceram para sempre.

Este Mundial já está ganho. Que se lixe. Venha outro!

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